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slider7REVISTA EQUITAÇÃO E LIGA PORTUGUESA DE CAVALOS DE CORRIDA, DOIS MARCOS NO MEIO EQUESTRE PORTUGUÊS FUNDADOS QUASE NA MESMA ALTURA

Em primeiro lugar, os meus grandes Parabéns pessoais e em nome da Liga pela centésima edição desta magnífica publicação. Estando ligado aos cavalos já há muitos anos e também tendo estado ligado ao meio editorial equestre, sei como é difícil manter e fazer avançar um projeto deste género, ainda por cima num mercado limitado como o de Portugal. Existem coisas perfeitas? Não, mas esta revista, apesar de na altura sermos concorrentes na mesma área, com muito respeito mútuo, sempre teve o mérito de contar com a colaboração de um belo naipe de colaboradores que em Portugal estão efetivamente entre os melhores nas suas áreas, polémicos ou não, sem desprestígio para outras figuras relevantes do meio equestre português.

 

Assisti desde o princípio ao projeto da Revista Equitação, ao seu nascimento, ao projeto do Jornal Equitação, entretanto acabado, e a ascensão da revista a número um das publicações equestres em Portugal. Já conhecia Eduardo Carvalho da altura em que ainda existia a publicação que eu geria, entretanto também fechada por motivos económicos ligados à não concretização daquilo que seria o seu suporte económico, as apostas mútuas hípicas. Por isso, como Relações Públicas da Liga, a minha colaboração com a Revista Equitação, que faço com muita honra e muito gosto, acabou por acontecer de forma natural, e já lá vão muitos anos.

Não existe muita diferença temporal entre o aparecimento da Revista Equitação e a fundação da Liga Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida. Ambos os projetos, literalmente contra ventos e marés, conseguiram impor-se como uma referência nas suas áreas.

No ano conturbado que levou à fundação da Liga, oficializada em 1997, as corridas organizadas viviam tempos cada vez mais difíceis que, eventualmente, poderiam levar ao fim do campeonato nacional e à organização exclusivas das então populares e perigosas corridas rurais.
Antes da Liga, e já na parte final da Associação Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida do Norte de Portugal como organizadora do campeonato nacional de corridas de cavalos, as corridas, e testemunhei tudo isso, tornaram-se praticamente uma bandalheira, perigosas, sem respeito nenhum pelas pessoas e animais e uma organização que nos últimos tempos frequentemente cancelava corridas no próprio dia e muitos prémios ficavam por pagar, já para não falar nos indivíduos ébrios e frequentes cenas de pancadaria, que infelizmente levou a que estas ficassem como uma péssima fama, merecida, devido ao que se passava. O mal é que essa fama perdurou e foi alimentada de forma maldosa por personagens pouco recomendáveis, até ao momento em que as pessoas que têm esse à priori vêm que a realidade é completamente diferente. Desde esses tempos conturbados as corridas evoluíram em todos os sentidos de uma forma que teria que ser medida em anos-luz.
Foi nessa altura, com a interrupção de um campeonato a meio e não pagamento de prémios que fui contactado por Manuel Armando, para alertar os leitores do meu Jornal de todos os problemas que se estavam a passar, ao mesmo tempo um grupo de pessoas poderosas no meio das corridas, fartos da bandalheira, juntaram-se e resolveram formar a Liga. Como qualquer organismo novo havia falhas e muito trabalho a fazer, mas graças à união desse punhado de homens a Liga conseguiu-se impor e dar a dignidade que as corridas merecem. Apercebi-me na altura que havia uma lacuna na Liga no que dizia respeito a vários aspetos ligados à imagem, comunicação e relações internacionais, tendo ficado a meu cargo essa área.

Muito fica por contar e muitas pessoas que contribuíram de forma essencial neste projeto ficam por mencionar, mas o espaço é obviamente limitado e a história muito longa.

Nada melhor do que os principais envolvidos na gestão da Liga até hoje para relatarem vários acontecimentos passados e a sua visão pessoal.

São eles Manuel Armando, a pessoa mais antiga atualmente integrada em todos os aspetos das corridas de cavalos, eu próprio, que comecei por não ter nenhum papel ligado à organização de corridas, estava ligado à parte jornalística e já na altura ao processo das apostas mútuas hípicas, José de Freitas, proprietário e escolhido por unanimidade como a pessoa mais indicada para liderar a Liga e por último Ricardo Carvalho, bastante mais recente no mundo das corridas mas que graças às suas qualidades foi o sucessor de José de Freitas como presidente da Liga até aos dias de hoje.

Para terminar a resumida visão que tive dos acontecimentos, tornou-se evidente que foi a forte cumplicidade, amizade e respeito entre um punhado muito restrito de homens que conseguiram levar as corridas para a frente em Portugal. De lamentar, obviamente, a Liga ainda não ter conseguido que as apostas mútuas hípicas urbanas tenham sido introduzidas em Portugal. Uma coisa é dizer, outra é provar, mas posso afirmar com toda a certeza, pois estive envolvido sempre no processo das apostas, que várias investigações já deveriam ter sido feitas na devida altura. Os Cadernos de Encargos não eram perfeitos, aliás o primeiro Concurso para a Exploração das Apostas Mútuas Hípicas Urbanas falhou porque as exigências do Caderno de Encargos eram irrealistas para Portugal, mas os erros foram sendo corrigidos e a partir daí quando o processo das apostas dava importantes passos, aconteciam sempre os acontecimentos mais bizarros e injustificados, que chegaram a envolver o Presidente da República, que fizeram com que as apostas fossem sendo adiadas. Tanto quanto sabemos, o dossiê das apostas encontra-se atualmente no gabinete do primeiro-Ministro, Passos Coelho.

Queria deixar uma homenagem para aqueles que já não estão connosco e que tanto fizeram pelas corridas de cavalos. Aqui tenho que mencionar duas pessoas chave, Furtado Mendonça, prematuramente desaparecido, que com o seu Hipódromo de Ponte de Lima, geriu durante muitos anos a catedral das corridas de cavalos em Portugal. Incontornável é a menção, importância e influência do histórico José Canelas, seria a pessoa ideal para fazer o retrato das corridas de cavalos em Portugal, até ao aparecimento da Liga, era uma personagem que além de estar ligado diretamente às corridas de cavalos há muitas décadas foi a responsável pela ainda atual mas totalmente desatualizada Legislação sobre as apostas em corridas de cavalos, pois data já de 1955, e por um mal-entendido e um erro ortográfico, também as apostas em provas de saltos, uma história muito pitoresca. A sua colaboração e amizade com a Liga foi imediata e inestimável, uma pessoa que sem dúvida muita falta faz. As inúmeras conversas que tive com ele eram interessantíssimas porque tínhamos outros interesses em comum, pois era um amante dos desportos motorizados, tendo corrido em motas, em automóveis e tendo fundado o primeiro negócio de aluguer de aviões em Portugal, tudo áreas do meu interesse. Só por curiosidade, José Canelas é creditado como fundador de uma marca de automóveis portuguesa, a MG Canelas, que na realidade era um MG Inglês mas transformada e melhorado por ele, de tal maneira que os britânicos compraram o projeto.
Deixo aqui a palavra aos meus companheiros.

JOSÉ DE FREITAS, PROPRIETÁRIO DE CAVALOS DE CORRIDA, UM DOS FUNDADORES DA LIGA E ELEITO COMO PRIMEIRO PRESIDENTE.

O que o levou a revoltar-se com o que se passava e resolver ser um dos fundadores da Liga?

Na altura as corridas eram organizadas pela associação liderada por Adolfo Cardoso, estavam-se a tornar bastante más com inúmeros problemas. Eu, Manuel Armando e outros que já andávamos nas corridas há uns anos resolvemos agir porque a situação tornou-se insuportável, levando inclusivamente ao cancelamento de várias provas do campeonato. Falei com Manuel Armando, que seria a pessoa mais tecnicamente adequada, David Ferreira, que nos cederia gentilmente uma sede para a Liga, Manuel Pinto Marques, João Ribeiro Pereira, Serafim Silva, Manuel Benjamim e Manuel Gonçalves, os maiores e mais importantes proprietários de cavalos de corrida na altura e decidimos então fundar uma nova associação porque a situação encontrava-se insustentável.

Porque motivo assumiu a presidência da Liga?

Foram os meus colegas que acharam que eu reuniria as melhores condições para liderar este novo projeto. Acharam que eu tinha o perfil necessário para por as coisas direitas porque havia muita confusão, inclusive frequentemente agressões físicas entre os concorrentes, insultos, faltas de respeito, indivíduos ébrios, enfim, chegou a ser uma bandalheira total. O Manuel Armando, baseado nos regulamentos internacionais, lançou as bases para um regulamento para as corridas duro e altamente especializada em que qualquer mau comportamento seria severamente penalizado. A Liga foi então formalmente constituída e retomamos o campeonato nacional com este novo regulamento e sem permitir as faltas de respeito e os maus comportamentos vigentes, além de assegurarmos o financiamento efetivo das corridas, muitas vezes dos nossos bolsos, visto que antes os prémios de algumas corridas ficavam por pagar. Não foi fácil mas as coisas começaram logo a correr melhor, melhorando de ano para ano. Obviamente que os problemas foram mais do que muitos devido aos maus hábitos, mas com pulso forte ao longo dos anos fomos conseguindo que os indivíduos indesejáveis se afastassem e o nível técnico das corridas fossem melhorando continuamente.

Durante o seu mandato, lembro-me que houve campeonatos realmente espetaculares, inevitavelmente com alguns problemas, quais são os eventos que recorda com mais emoção?

Houve Campeonatos em que tinham sempre milhares de espetadores. As corridas tinham sempre o máximo de cavalos inscritos, não faltava financiamento e o Hipódromo de Ponte de Lima, apesar de longe do ideal, era a melhor pista portuguesa. Foram bons anos. Indivíduos com mau caráter sempre houve que queriam sabotar as corridas mas a Liga acabou sempre por se impor e eliminar esses problemas. Ainda foram cerca de sete anos seguidos que as corridas melhoraram de ano para ano.

Em 1999 fomos contatados pelo Serviço Nacional Coudélico (SNC) para legalizarmos as corridas a nível nacional. Que passos foram tomados?

O Victor lembra-se bem dessa fase, pois participou muito ativamente. Foram inúmeras as viagens quer ao SNC quer a Lisboa a vários Ministérios para legalizar, a nível internacional, as corridas em Portugal. A nível das pistas de corridas começou a haver problemas, por exemplo no Hipódromo de Coimbra e principalmente no Hipódromo de Ponte de Lima, que culminaram com o trágico desfecho do falecimento do Dr. Furtado Mendonça, o que levou a que as corridas em Ponte de Lima parassem durante algum tempo.

Esteve à frente da Liga por 2 mandatos o que o levou a não se recandidatar?

Sinceramente o cansaço começou-se a acumular. As pistas, devido à não regulamentação das apostas hípicas, começaram a fechar e alguns proprietários já conhecidos pela sua indisciplina começaram novamente a levantar inúmeros problemas. Achei que seria altura, até por motivos pessoais, para passar a pasta porque a Liga, apesar dos problemas, manteve-se forte e conseguiu impor-se. Tenho saudades do ótimo convívio que havia todas as semanas entre os membros da Direção da Liga e as viagens a França com o Victor, o Manuel, o Ricardo e outros. As corridas, muitas vezes, serviam de desculpa para organizar ótimos encontros entre amigos de forma espontânea, bons tempos. Só desejava que os nossos governantes finalmente abrissem os olhos e lançassem as apostas mútuas hípicas, principalmente numa altura de grave crise económica e social.

Manuel Armando, atual diretor Técnico e a pessoa com mais anos de ligação às corridas de cavalos. Uma paixão desde criança e que por pouco lhe custou a vida devido à falta de segurança das corridas na altura. Devido a esse triste evento passou para a parte administrativa, papel que tem vindo a desempenhar ao longo de décadas da melhor forma.

Sendo a pessoa que há mais tempo anda ligado aos cavalos de corridas, como nasceu essa forte paixão?

Pura e simplesmente pela tradição rural, pois a nossa família morava numa quinta onde os cavalos eram bastante utilizados para o trabalho, desde muito cedo comecei a correr e a obter inúmeras vitórias. Devido à falta de segurança das corridas exclusivamente rurais da altura fui tendo várias quedas até se dar o infeliz acidente quase fatal que me obrigou a um ano de hospitalização imobilizado e quebra das vértebras cervicais. Mas a minha paixão não diminui e passei a fazer parte da vertente administrativa em todos aspetos envolvendo-me cada vez mais nas corridas. Quando penso como eram as corridas na altura e como são agora foi realmente um passo de gigante que foi dado.

Assisti pessoalmente a varias corridas rurais que frequentemente se pareciam com as arenas da antiga Roma. Estando o Manuel Armando sempre ligado às corridas certamente notou esta diferença brutal?

Obviamente, a diferença é como da água para o vinho. Eram uma barbárie que a Liga felizmente com o tempo e bastante trabalho conseguiu erradicar.

Foi por esse motivo que foram criados dois campeonatos nacionais de corridas de cavalos, o campeonato rural e o campeonato nacional?

Foi. As corridas rurais sempre fizeram parte da tradição popular portuguesa e no verão eram cabeças de cartaz de inúmeras festas por todo o norte do país. Não é de um momento para o outro que a situação se poderá inverter nem a Liga tinha meios para poder fazer isso. Por isso se criou o campeonato regional, onde aos poucos se foram introduzindo todas as regras de bom comportamento e de condições de segurança e principalmente preparar os proprietários, jóqueis e cavalos para terem condições para passarem para o campeonato nacional. Há 30 anos os cavalos trabalhavam na lavoura durante a semana e corriam ao fim de semana, que foi quando comecei a correr. Houve uma pequena evolução natural que levou ao aparecimento da Associação Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida do Norte de Portugal, da qual eu já fazia parte. Durante algum tempo as coisas foram melhorando mas eventualmente devido ao mau funcionamento e ao fato de algumas pessoas terem parado no tempo, um grupo de pessoas que o Sr. Freitas já referiu, revoltou-se com a situação criando a atual Liga, como te deves lembrar pois falei contigo na altura e pedi também o teu apoio. Em boa hora nasceu a Liga que foi a entidade que regularizou tudo o que diz respeito às corridas de cavalos em Portugal. Conseguimos fazer um protocolo com o Ministério da Agricultura através do Serviço Nacional Coudélico, isso permitiu que quer os cavalos quer os jóqueis portugueses pudessem passar a correr de forma legal no estrangeiro onde ao longo dos tempos foram evoluindo até conseguirem importantes vitórias, outros através da Liga foram para o estrangeiro por lá ficando e fazendo carreira. Ao abrigo do Protocolo com o Serviço Nacional Coudélico, os seguros passaram a ser obrigatórios e apesar do elevado custo, pois são feitos em Inglaterra, os testes anti doping também se passaram a popularizar. Tenho que frisar a ajuda que o Eng.º José Canelas, responsável pela atual Legislação sobre as apostas em corridas de cavalos, que já data de 1955, nos deu em numerosos processos.

Em relação ao puro-sangue inglês de origem nacional, lembro-me que ao longo dos tempos as corridas exclusivas deste tipo foram evoluindo bastante para depois decaírem até ao ponto de nem sequer haver concorrentes para fazer corridas só de PSI de origem nacional. Que se passou?

Infelizmente os cavalos puro-sangue inglês de origem nacional não têm apoios nenhuns, o que é vergonhoso e sem apoios não há meios para a criação. O único apoio que tivemos foi do Serviço Nacional Coudélico, mas depois acabou por falta de verbas. Em relação à falta de criação é muito lamentável, e até existe uma associação mas que nada faz, isto demonstra uma grande falta de sensibilidade e incompetência, pois estamos a passar ao lado de uma fonte de riqueza. Basta ver os casos de França, onde é a segunda indústria nacional e o da Irlanda, onde é a primeira. Para os proprietários, sem apoios e sem apostas, fica muito mais barato adquirir um cavalo já treinado no estrangeiro, por isso as corridas dos PSI nacionais para já estão votadas ao esquecimento.

Tendo sido jóquei e posteriormente ter estado ligado à parte técnica, deve ter visto e até participado ao longo dos anos nas mudanças que as corridas de cavalos sofreram a todos os níveis?

Sim, a diferença é brutal. Lembro-me de participar em corridas, em jovem, sem condições nenhumas e hoje em dia, mesmo sem as apostas, as corridas em Portugal são reconhecidas a nível mundial, inclusive temos cavalos e jóqueis a correr e a ganhar lá fora, alguns até fizeram disso a sua profissão e ficaram no estrangeiro. Tudo isto só foi possível devido ao logo trabalho que a Liga fez que culminou com o reconhecimento internacional. As corridas são uma máquina que tem várias peças, os cavalos, os jóqueis, os organizadores, etc., e é óbvio que sem uns outros não evoluiriam.

Nestes anos todos o que recorda de melhor e de pior?

É um turbilhão de emoções, são muitos anos e muitos acontecimentos. De pior tenho que mencionar obviamente o facto de em Portugal ainda não haver apostas mútuas hípicas, trabalhamos tanto mas ainda não se conseguiu desbloquear o processo. De bom, resumidamente, foi a enorme evolução geral em todos os aspetos e o reconhecimento internacional das corridas portuguesas. Tivemos e temos inúmeros convites para ou organizar cá ou participar no estrangeiro nas mais prestigiosas provas de corridas de cavalos a galope, só que infelizmente sem as apostas não há fundos para isso. O comportamento dos proprietários e jóqueis mudou radicalmente, os regulamentos são aplicados à risca e os castigos severos e apesar de todas as dificuldades e falta de apoio, desde que a Liga foi criada ainda não houve nenhum ano em que não se fizesse um campeonato nacional. O facto do trote atrelado, com o apoio da “Cheval Français”, que faturou em todo mundo cerca de cinco biliões de euros, com quem fizemos um Protocolo em 2008, se ter desenvolvido de forma extraordinária nos últimos anos também é muito positivo e só veio demonstrar que os franceses reconhecem na Liga toda a competência técnica para gerir o trote atrelado em Portugal. O primeiro protocolo internacional foi com a “Pari Mutuel Urbaine”, o gigante francês das apostas que faturou no ano passado cerca de nove biliões de euros, ainda era José de Freitas presidente, os restantes com a “Cheval Française” e “France Galop” foram assinados mais tarde, no mandato do Ricardo Carvalho.

RICARDO CARVALHO, PROPRIETÁRIO DO HIPÓDROMO DE FELGUEIRAS E PRESIDENTE DA LIGA.

Sendo uma pessoa ligada ao mundo equestre, mas não às corridas de cavalos em Portugal, como se deu a sua ligação à Liga?

Estou ligado ao mundo equestre de várias formas e como sou adepto das corridas de cavalos acabei por me juntar à Liga. Fui convidado para vice-presidente da Liga no segundo mandato do Sr. Freitas em 2002, os mandatos têm uma duração de dois anos e no fim deste fui convidado para presidente, com o apoio de toda a direção da Liga. Gostava das corridas, mas não gostava das corridas rurais que se faziam na altura em Portugal. Criticava, o que é fácil, mas na prática nada fazia, até que me lançaram o desafio de passar para o lado de cá e começar a trabalhar, assim foi e ao longo destes anos tenho dado o meu melhor. Ninguém é perfeito, por isso as coisas nem sempre correm como queríamos, mas quem deve avaliar o meu trabalho são os outros.

Um aspeto que sempre me pareceu muito importante na Liga foi a amizade forte entre um grupo restrito de pessoas, que levou a que a Liga vingasse, sem isso parece-me que as corridas organizadas já teriam acabado há muito tempo.

Sem dúvida, sem querer tirar o mérito a ninguém, pois todos são importantes e deram o seu contributo maior ou menor para as corridas de cavalos, há um grupo de homens chave que sem eles as corridas acabavam e existe um excelente relacionamento entre nós, nem sempre estamos de acordo, mas a Liga é uma democracia e impera a vontade da maioria.

Quais acham que foram os momentos mais marcantes dos seus mandatos?

Basicamente os meus colegas já disseram tudo. Acho que se fizeram muitas coisas boas, acho que se evolui muito. Pela negativa, acho que houve um recuo no que diz respeito aos hipódromos, tínhamos uma pista boa, que era o Hipódromo de Ponte de Lima, mas que está desativada, também tínhamos o Hipódromo de Coimbra e a prova no CNEMA, que era uma excelente oportunidade para divulgar as corridas no sul, mas em contrapartida apareceram novas pistas, mais pequenas mas com qualidade, tendo em conta a realidade portuguesa. Sempre disse aos meus colegas e sempre trabalhei para isso, já que as pessoas não vêm às corridas, vamos nós levar as corridas às pessoas, por isso um dos objetivos de fazermos um campeonato regional era das autarquias onde as corridas eram realizadas fazerem evoluir as suas pistas para que pudessem passar para o campeonato nacional, fazerem pistas maiores com melhores condições. Em alguns sítios isso acabou por acontecer, em Felgueiras nunca tinha havido na altura nenhuma corrida para o campeonato nacional e hoje em dia, por exemplo, tem uma pista dotada de todas as infraestruturas e que recebe várias provas do campeonato nacional, inclusive o Silver Prize e o Golden Prize. Na Maia a pista também tem vindo a crescer e a ser melhorada, claro que não é o hipódromo que está projetado e que na altura o presidente da Câmara da Maia, Vieira de Carvalho e o presidente da Liga, José de Freitas, queriam, mas sem as apostas isso não é possível. Apareceram também as pistas de Cabeceiras de Basto, de Guimarães e outras, algumas estão paradas por falta de verbas, no fundo vimos sempre dar ao mesmo, a falta das apostas para financiarem todos estes projetos. Durante alguns anos organizamos uma corrida no CNEMA, na Feira Nacional da Agricultura, que sempre foi um sucesso, deixando as pessoas admiradas com o nível que as corridas já tinham em Portugal, apagando aos poucos a má imagem que as corridas deixaram antes da Liga aparecer. Mais recentemente também foi muito importante organizar uma prova no próprio Serviço Nacional Coudélico. Quem gosta de cavalos normalmente gosta de corridas, e foi por assistirem a provas da Liga que muitos nomes conhecidos do meio equestre português, ficando admirados com o nível atingido, ofereceram a sua ajuda e colaboração no trabalho da Liga. Outro aspeto importante foi o controlo anti doping, claro que é impossível erradicar esse mal definitivamente, mas de ano para ano são cada vez menos os casos, este ano, por exemplo, fizemos vinte controlos e só um cavalo é que acusou positivo, é a mesma média do que se passa no estrangeiro o que é bom.

Uma diferença grande que observei ao longo dos anos, foi um crescente maior respeito pelas pessoas e os animais. A que se deve isso?

Sem dúvida, hoje há muito mais respeito pelos animais, as antigas corridas rurais eram uma autêntica barbárie com múltiplos acidentes e mesmo mortes e feridos entre os espectadores. As pessoas também têm outra maneira de saber estar e respeitam-se muito mais. Penso que acabou por se fazer uma seleção natural, já que a Liga sempre atuou de forma firme em ações disciplinares, não quer dizer que elas não acontecessem, mas em última análise houve um ou dois casos em que o castigo máximo foi aplicado, a expulsão da Liga e por consequência a proibição de correr em qualquer corrida oficial em Portugal e no estrangeiro.

Para terminar, obviamente que lamenta profundamente a não existência de apostas em Portugal?

É uma luta dura, que mexe com muitos poderes instituídos e com a inércia do Governo. Não queremos simplesmente as apostas via on-line ou por outros eletrónicos, pois isso pouca riqueza trás para o país, apesar de mesmo nesse caso a Liga ser contemplada com uma percentagem. O que queremos é o desenvolvimento de toda a indústria que se encontra associada às corridas de cavalos, a criação, a dezenas de profissões ligadas diretamente às corridas, o turismo, entre várias outras mais-valias. Temos o apoio e parcerias com as maiores instituições nacionais e internacionais, todos querem as apostas em Portugal, porque sabem perfeitamente que as corridas com apostas são o motor do desenvolvimento de todas as outras áreas equestres. Tanto quanto sei, as apostas mútuas hípicas já estão no gabinete do primeiro-Ministro, Passos Coelho, a Associação Nacional de Casinos ainda não emitiu nenhuma posição oficial sobre as apostas mútuas hípicas, a Santa Casa da Misericórdia mostrou-se disponível para negociar e os grandes grupos franceses estão dispostos para entrar nas apostas em Portugal, sozinhos ou ligados a uma entidade portuguesa. Da questão das apostas hípicas on-line não temos tido dados concretos.

TEXTO DE VICTOR MALHEIRO

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2016 11 13 Cartaz Maia sq